terça-feira, 20 de outubro de 2009

Meu amigo me deu este conto

Aí pelas Três da Tarde

Raduan Nassar
(para José Carlos Abbate)

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Texto extraído do livro "Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.

domingo, 13 de setembro de 2009

sunday

depois da noite longa e quase dia-tarde, o cabelo molhado ao vento e a fumaça do cigarro são companheiros no sobrevôo. os telhados da vila, vistos da janela, convidam ao mergulho e ao devaneio sem pretensão de domingo. uma batida forte do coração aberto e profundo se faz ouvir e o pensamento vai longe. o corpo ainda sente a respiração outrora intensa, próxima e quente e quer descansar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ele

vou começar a escrever sem saber bem o que vem na mão na mente na minha. a vida então é tão curta, tão fugidia... e o som da televisão só me faz sentir mais forte essa passagem. passagem do tempo, dos gestos do corpo. me disperso por alguns segundos e a embriaguez me faz revirar. opa, paráfrase? do quê? do que não sei, do que nunca vou saber. tento pegar esse tempo na mão e senti-lo entre a carne do dedo e as unhas pintadas de esmalte da cor da moda. não consigo. minha mão não é grande o suficiente para pegar o tempo. e ele foge sem meu consentimento, sem me perguntar se está tudo bem. não quero parafrasear de novo mas meus dedos batem nas teclas como quem vive sozinho, solto. a carne e a unha pintadas com o esmalte da cor da moda fazem por si só o tecla tecla clá e eu continuo sem entender porque o tempo me escapa. e tento, não é truco, controlar o vai-e-vem. não consigo. minhas mãos não cansam de presssionar as teclas. Que repetição! E pra quem falava em tempo...

impossível (impossível é uma boa palavra pra começar aquilo que não (se) sabe pra onde vai) abrir um parêntesis sem desviar a atenção daquilo que apareceria após a pausa. posopausa. assim dizia nico. impossível converter em tato e toque aquilo que era. foi. não sei se está ao meu alcance. parece que não, mas pode ser que sim. e começo a digitar melhor as palavras do pensamento ou é o pensamento que se faz melhor e mais vivo? os dedos e o pensamento estão indo juntos? estão eles a me dominar (pra não usar o gerúndio)? será que posso pedir que peguem o tempo e me dêem? nas mãos? não cesso nunca e continuo sentindo o plástico preto duro como a alavanca para o pensamento que se digitaliza aqui. num tempo como trem que parte. e deixa uma vida pra trás, que corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, sem nunca mais chegar.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

(al)one in the bar

genésio, 16/04 - quase dez?

é engraçado (e triste também) ver como água cristalina como os adereços com os quais se cobrem as pessoas têm o poder real de pasteurizá-las até fazerem com que todos pareçam uma só. só uma, de um jeito ou de outro, uma só, a mesma, o mesmo. nem o sexo é mais fator de diferenciação. agora ele junta (ou ele é juntado) e se transforma em um só. faz todos, pinto, peito, barba ou batom, serem um só! e gostam!
ela tem o olhar de mulher que sabe que as mulheres olham para seu marido com um "quê" de quero mais. e o da jaqueta preta acetinada é o rp da mesa. chama o juarez e sugere que todos compartilhem uma cachaça. intercepta seu amigo que volta do banheiro com cara de quem vai embora e diz: "fica que o fulano tá vindo. você vai gostar do cara".
hoje em dia tem umas pessoas com o quadril estreito, as pernas finas e o tronco largo, mas é uma coisa estranha porque logo se vê que o tronco largo é resultado de uma mistura louquíssima de malhação, comida, bebida e drogas. é estranho e cada vez que eu escrevo a palavra estranho e ela pula de uma linha pra outra (do caderno) eu divido de uma forma diferente. 
calmatevi ragazzi, il mondo sta per finire ma existe ancora.
no meio das pessoas pasteurizadas encontrei (mas não saudei) o amigo do faustão, vulgo "fausto silva", um cara que conheci um dia no hair gang quando não mais hair gang.
eu tô fumando um cigarro num local fechado em protesto à aprovação da lei que proíbe fumar em locais fechados. e eu fiquei tonta mas continuo protestando. fiquei tonta mas ignorei os moços que me viam escrever rápido e comentavam. 
já sei: todo mundo, sem distinção por sexo, compra roupa na zara. novo slogan: a loja mais pasteurizada do mundo! você entra você e sai um só!
aí o garçon passou e disse pro outro, mais novo que ele: "vou trazer o celso viáfora pra essa mesa!".
ele da jaqueta preta acetinada tem as mãos grandes... plural dá um "quê" de quero mais na oração. e hoje caiu um terço de dedo no chão do museu. nunca tinha visto isso.
o meu lábio superior está pulsando! que estranho.
é engraçado: não sei se as pessoas acham que eu sou uma escritora qualquer ou uma jornalista de coluna social qualquer, só sei que elas ficam intrigadas com o caderninho e a mão que escreve sem parar, ou fazendo pequenas pausas. 
aí eu acabei ficando numa mesa estrategicamente localizada para observar todas as outras mesas do salão, com exceção a esta logo à minha esquerda, quase atrás de mim.
eu gosto da idéia de sair sozinha e não só porque chamo a atenção com meu caderno e olhares, nem só por ocupar uma mesa disputada num bar disputado, mas também porque é bom estar na companhia de mim mesma e, subitamente, enquanto escrevo esse texto, me passa pela cabeça a possibilidade de comer um doce, mas aí o moço meio quadradinho na forma pára (não tem mais acento com a nova regra da língua) e me chama para uma conversa e diz: "deve ser difícil isso...". acho que ele tá sozinho e digo que é mais fácil do que ele imagina. nada de física quântica, muito menos matemática. são só pensamentos e quando me dou conta estou escrevendo e pensando sbre o que escrevo e penso.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

fadinha e elfo da floresta


minha prima marina é uma fadinha que virou fada e agora está pintando e bordando em paris. ela é minha prima, minha amiga pra sempre, um pedaço bem gostoso e recheado de coisas lindas da minha família.
anda pelas ruas da cidade luz a pintar e sonhar, imprimindo às telas de papéis dos mais variados e sofisticados tipos desenhos incríveis, oníricos e muito, mas muito, coloridos. com cores de paixão, amor, alegria e tristeza também, mas principalmente com cores de quem está descobrindo mais o mundo que habita, de quem ama a vida e generosamente devolve à ela o que tem de bom dentro de si.
amo muito a má.
olha a cara de fadinha que ela tem desde pequena. e o flávio parece que acompanhou a irmã: cara de elfo da floresta!
amo os dois, demais.

terça-feira, 7 de abril de 2009

é tão engraçado viver e sentir e ver a vida se tornando mais complexa e ao mesmo tempo mais boba. os projetos, responsabilidades, encontros e eventos parecem tantos, mas as coisas cada vez menos têm aquela força... não sei. não estou falando da força da juventude, porque esta é poderosa e ainda vigora, mas daquilo que escapa mais fácil entre os dedos e se esparrama. na verdade, mais tempo desse viver inundado traz mais dúvida e desconforto e junto com tudo isso, emoção de ser cada vez mais, de sentir cada vez mais fundo e ficar cada vez mais longe de tudo que foi. tem uma sensação que ronda o corpo e os pensamentos; é meio densa e escorregadia, mas é também de uma cor quase sem cor que inunda. inundar a vida de mais vida. é isso. a existência nossa tem bastante disso, de inundar os dias e as horas, no sonho, no banho, com a panela vazia sobre o fogão sujo do domingo. inundação cotidiana.

segunda-feira, 30 de março de 2009


a minha amiga me disse que se preocupa em postar textos longos em seu blog. eu, ao invés, disse que fico encanada em postar pouco texto, coisas curtas. aí conversamos e na verdade a angústia se sustenta na premissa de todo blog: ele tem que ser interessante ao leitor, já que é mais do que um caderno que você guarda na gaveta; está na rede para ser lido e fuçado, por isso deve instigar o olhar do outro, por isso só se completa com o olhar do outro e a sua leitura ou passada de olho. falar muito de alguma coisa ou escrever pouco sobre outra pode extrapolar a medida do interesse daquele que está, junto com você (o escritor do blog, no caso) na rede, vagando em busca de algo que o instigue. e você está ali (ou aqui) maquinando internamente (mas, veja, não só internamente, pois somos olho pra fora e tato nas coisas) aquilo que se quer de alguma forma ser concreto, mesmo que nas palavras. é quando você descobre que nas palavras o mundo ganha forma e som. é quando passa aquela agitação que incomodava e aparece o texto, curto ou longo, na tela luminosa à sua frente.

quinta-feira, 26 de março de 2009

luna blu

e eu falava italiano e era noite-dia-noite. no sonho as palavras, cores e outros sons se misturam e fica tudo tão suave e ao mesmo tempo azul. tinha uma lua enorme azul e branca numa cor só possível com aquele azul da lua e eu falando italiano.

o cartão de crédito não era aceito, mas a lua continuava grande e pela metade. e azul.

com o aumento da indignação pelo motivo grave de não possuir mais crédito na instituição bancária o italiano parecia sair com mais precisão e riqueza. palavras seguidas de palavras, pausas, palavras, gestos, mãos, mais palavras. a máquina insistia em anunciar a impossiblidade da compra e se deu por vitoriosa sobre mim. a máquina contra mim. no sonho suave da lua azul e branca.

era azul mas não era inteira. ficava meio que deitada numa linha de horizonte como o do mar, com ondas pequenas e também suaves. os meus olhos viam a nitidez de sua separação do mar, da água. ela que nos meus olhos eu sentia, assim, como quando a gente mergulha e vê o fora e o dentro do mar... era cristalina, a lua azul e branca e brilhava muito na noite-dia-noite do meu sonho.

quinta-feira, 12 de março de 2009

paisagem na tela


e eu fiquei com uma vontade de escrever no blog, assim, muita. e nao me veio o que escrever. fiquei pensando, pensando, pensando... o álcool já ía embora do corpo cansado e meio fraco, mas a bolacha que tava no pacote meio aberto ajudou a melhorar o corpo, cansado. e aquela vontade de escrever nao me largava e aí pra piorar eu lia frases e mais frases, pensamentos elaborados na tela de luz, na rede mundial de computadores e me sentia cada vez pior. as palavras simplesmente nao me pertenciam ou nao queriam me pertencer. porque nessas horas inclusive a palavra te abandona, te deixa ao bel prazer do tempo e do acaso, até voltar, um dia, talvez. e as pessoas íam jogando aquelas letras que formavam palavras na folha, ops, na tela branca do computador e me parecia que faziam mágica com suas idéias, seus vocabulários, seus sonhos, tanto que se transformavam em imagens, figuras, paisagens.

quarta-feira, 11 de março de 2009

um dia tiramos esta foto. foi num parque aí, ibirapuera chamam. eu sei que tô lá no meio do lado da tê. quanta pele. eu sei que tô lá no meio. quanto pêlo. eu sei que tô lá. na pele.