quinta-feira, 25 de novembro de 2010
cena de mãe e filho na primavera da cidade grande
na porta quase pra fora da estação de metrô, que é terminal de ônibus também, ela olha o seu ônibus e constata: está quase partindo. vamos perdê-lo. o filho, filho que é, responde rapidamente ao olhar fixo da mãe e corre em direção ao ônibus. atravessa o terminal lotado de gente espremida por causa da chuva (com gelo!) que cai no fim de tarde cinza, a mochila pesa e o uniforme está grande no corpo, mas ele corre em direção ao veículo coletivo e grita: "vem mãe, ele tá saindo!". corre mais. entra. para na porta e coloca a cabeça pra fora e procura a mãe, que, como ele, passa entre as filas dos outros ônibus. dentro do ônibus ele pede ao motorista que espere sua mãe: "ela tá vindo moço.". ela ainda olha mais uma vez, mas a chuva forte impede que veja bem. ouve a voz do filho e entra. o ônibus parte e leva os dois, juntos e respingados de chuva quente de primavera.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
trechos do pensamento que não para
"amor no coração só leva à evolução."
"a poesia esgota como o gozo no começo da tarde."
"a vida cotidiana invade e mata a arte. ou cria?"
"the life is just expectations!"
"cada um com seu caracol"
"não tenho tipos ideais, mas odeio tipos idiotas" (essa é do anderson na mesa do bar decadência e elegância em brasília)
"quina do cerrado, pindaíba, marmelada de cachorro, orelha de negro, açoite de cavalo. são as árvores do cerrado!"
"a poesia esgota como o gozo no começo da tarde."
"a vida cotidiana invade e mata a arte. ou cria?"
"the life is just expectations!"
"cada um com seu caracol"
"não tenho tipos ideais, mas odeio tipos idiotas" (essa é do anderson na mesa do bar decadência e elegância em brasília)
"quina do cerrado, pindaíba, marmelada de cachorro, orelha de negro, açoite de cavalo. são as árvores do cerrado!"
alumia
cidade te ilumina
cidade me ilumina
ilumina a viagem interna
a viagem interna minha
que é na geografia
das ruas e dos mapas
das sensações e medos
me ilumina no caminho
do encontro do eu
que é outro
é inteireza do encontro
é o eu-outro.
cidade me ilumina
ilumina a viagem interna
a viagem interna minha
que é na geografia
das ruas e dos mapas
das sensações e medos
me ilumina no caminho
do encontro do eu
que é outro
é inteireza do encontro
é o eu-outro.
quarta-feira, 31 de março de 2010
tem vezes que eu quero dizer tanto, tantas coisas que vem à cabeça. tem os que não sabem usar a crase, os que amam a nina simone (just like me), os que contemplam a lua cheia no céu, os que não sabem o que fazer com tanta felicidade, os que fingem ser felizes.
e de repente uma música me invade e toma conta do meu estar no mundo. na lembrança recente o táxi vai e... pára. a menina grita e o carro para pro outro entrar. entra logo!
eu não quero me repetir mas a vida é um pouco (ou bastante) repetição. sempre o táxi, sempre alguém que entra e senta: vou pra pinheiros, segue em frente.
mas pra quem falo nesse mundo cheio de vozes?
as vozes estão aqui e são muitas. o que eu faço com elas?
e de repente uma música me invade e toma conta do meu estar no mundo. na lembrança recente o táxi vai e... pára. a menina grita e o carro para pro outro entrar. entra logo!
eu não quero me repetir mas a vida é um pouco (ou bastante) repetição. sempre o táxi, sempre alguém que entra e senta: vou pra pinheiros, segue em frente.
mas pra quem falo nesse mundo cheio de vozes?
as vozes estão aqui e são muitas. o que eu faço com elas?
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Meu amigo me deu este conto
Aí pelas Três da Tarde
Raduan Nassar
(para José Carlos Abbate)
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
Texto extraído do livro "Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.
Raduan Nassar
(para José Carlos Abbate)
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
Texto extraído do livro "Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.
domingo, 13 de setembro de 2009
sunday
depois da noite longa e quase dia-tarde, o cabelo molhado ao vento e a fumaça do cigarro são companheiros no sobrevôo. os telhados da vila, vistos da janela, convidam ao mergulho e ao devaneio sem pretensão de domingo. uma batida forte do coração aberto e profundo se faz ouvir e o pensamento vai longe. o corpo ainda sente a respiração outrora intensa, próxima e quente e quer descansar.
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