quarta-feira, 24 de novembro de 2010

trechos do pensamento que não para

"amor no coração só leva à evolução."

"a poesia esgota como o gozo no começo da tarde."

"a vida cotidiana invade e mata a arte. ou cria?"

"the life is just expectations!"

"cada um com seu caracol"

"não tenho tipos ideais, mas odeio tipos idiotas" (essa é do anderson na mesa do bar decadência e elegância em brasília)

"quina do cerrado, pindaíba, marmelada de cachorro, orelha de negro, açoite de cavalo. são as árvores do cerrado!"

alumia

cidade te ilumina
cidade me ilumina
ilumina a viagem interna
a viagem interna minha
que é na geografia
das ruas e dos mapas
das sensações e medos
me ilumina no caminho
do encontro do eu
que é outro
é inteireza do encontro
é o eu-outro.

quarta-feira, 31 de março de 2010

tem vezes que eu quero dizer tanto, tantas coisas que vem à cabeça. tem os que não sabem usar a crase, os que amam a nina simone (just like me), os que contemplam a lua cheia no céu, os que não sabem o que fazer com tanta felicidade, os que fingem ser felizes.
e de repente uma música me invade e toma conta do meu estar no mundo. na lembrança recente o táxi vai e... pára. a menina grita e o carro para pro outro entrar. entra logo!
eu não quero me repetir mas a vida é um pouco (ou bastante) repetição. sempre o táxi, sempre alguém que entra e senta: vou pra pinheiros, segue em frente.
mas pra quem falo nesse mundo cheio de vozes?
as vozes estão aqui e são muitas. o que eu faço com elas?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Meu amigo me deu este conto

Aí pelas Três da Tarde

Raduan Nassar
(para José Carlos Abbate)

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Texto extraído do livro "Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.

domingo, 13 de setembro de 2009

sunday

depois da noite longa e quase dia-tarde, o cabelo molhado ao vento e a fumaça do cigarro são companheiros no sobrevôo. os telhados da vila, vistos da janela, convidam ao mergulho e ao devaneio sem pretensão de domingo. uma batida forte do coração aberto e profundo se faz ouvir e o pensamento vai longe. o corpo ainda sente a respiração outrora intensa, próxima e quente e quer descansar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ele

vou começar a escrever sem saber bem o que vem na mão na mente na minha. a vida então é tão curta, tão fugidia... e o som da televisão só me faz sentir mais forte essa passagem. passagem do tempo, dos gestos do corpo. me disperso por alguns segundos e a embriaguez me faz revirar. opa, paráfrase? do quê? do que não sei, do que nunca vou saber. tento pegar esse tempo na mão e senti-lo entre a carne do dedo e as unhas pintadas de esmalte da cor da moda. não consigo. minha mão não é grande o suficiente para pegar o tempo. e ele foge sem meu consentimento, sem me perguntar se está tudo bem. não quero parafrasear de novo mas meus dedos batem nas teclas como quem vive sozinho, solto. a carne e a unha pintadas com o esmalte da cor da moda fazem por si só o tecla tecla clá e eu continuo sem entender porque o tempo me escapa. e tento, não é truco, controlar o vai-e-vem. não consigo. minhas mãos não cansam de presssionar as teclas. Que repetição! E pra quem falava em tempo...

impossível (impossível é uma boa palavra pra começar aquilo que não (se) sabe pra onde vai) abrir um parêntesis sem desviar a atenção daquilo que apareceria após a pausa. posopausa. assim dizia nico. impossível converter em tato e toque aquilo que era. foi. não sei se está ao meu alcance. parece que não, mas pode ser que sim. e começo a digitar melhor as palavras do pensamento ou é o pensamento que se faz melhor e mais vivo? os dedos e o pensamento estão indo juntos? estão eles a me dominar (pra não usar o gerúndio)? será que posso pedir que peguem o tempo e me dêem? nas mãos? não cesso nunca e continuo sentindo o plástico preto duro como a alavanca para o pensamento que se digitaliza aqui. num tempo como trem que parte. e deixa uma vida pra trás, que corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, sem nunca mais chegar.